A divulgação do Censo pelo IBGE nos deu vários retratos da vida brasileira nesses últimos 10 anos. Mas talvez nada chame mais atenção, na minha opinião, do que a história de gênero que está se delineando no desenvolvimento do país. Caminhamos para um apartheid de gênero, com implicações sobre aspectos importantes da vida no país. Vejamos.
As principais manchetes positivas foram quase todas referentes ao papel da mulher no desenvolvimento. A taxa de fertilidade, que baixou do limite de reprodução da população de 2,1 filhos por mulher, é reflexo de um conjunto de elementos como um nível maior de escolaridade, maior participação das mulheres no mercado de trabalho e de um nível maior de aspirações das mulheres no país. Ponto positivo, assim como o aumento para 38,7% da mulheres que já são financeiramente responsáveis pelos seus domicílios. A redução de 18.8% em 2000 para 17.7% da taxa de gravidez na adolescência também é um sinal positivo. Juntos, esses números mostram uma evolução importante e justa da mulher no desenvolvimento humano brasileiro. É o lado 'Pereirão' do Censo (para quem sabe do que se trata a Novela da Glbo das 9hs), a imagem de um Brasil que trabalha, que estuda, que se dedica, que é dono ou dona, melhor dizendo, do seu próprio destino, para começar pelas suas decisões reprodutivas.
E para os homens? A manchete que mais chamou atenção na divulgação do censo foi a de que a violência mata mais homens que mulheres. De fato, entre os 20-24 anos, 80.8% são homens, o que se explica parcialmente pela violência dos homens e por acidentes de trânsito nos quais eles estão envolvidos. Além disso, há indícios de que a discriminação contra mulheres e negros não diminiu na sociedade brasileira, pois quando tratamos do mercado de trabalho eles ganham respectivamente apenas 70% e 54% da média de rendimento dos cara-pálidas. Essa é a imagem Pereirinha do Censo, a concepção de um Brasil violento, que estuda pouco, que é pouco gentil e que convive com a herança de discriminações.
Então o que esse Censo está dizendo? Em linhas gerais que precisamos olhar para o apartheid de gênero que está sendo criado no qual os homens estão caminhando para o ser 'o sexo frágil' do futuro, deseducado, violento, pouco humano. É preciso olhar para os meninos, educá-los de modo diferente. Estamos diante de um Brasilzão vs um Brazilzinho que somente pode ser equacionado com pesados investimentos na educação para o desenvolvimento humano
Flavio, obrigado pelo post.
ResponderExcluirHa um par de dias eu estava fazendo uma conta simples para saber quanto os empregadores descontam do salario das mulheres em relacao aos homens. Uma pergunta que aflige os economistas eh por que ha diferencial de salarios entre homens e mulheres? Um dos motivos que me veio a mente eh o risco diferenciado das mulheres: elas podem engravidar! Sabemos que, (1) a legislacao brasileira ampliou o periodo de licenca maternidade recentemente, (2)pela literatura de labour economics, um tempo fora do mercado de trabalho desatualiza os trabalhadores, e (3) a mesma legislacao brasileira proibe os empregadores de demitirem as mulheres gravidas. Este ultimo tem um efeito de risco moral que amplia o risco de contratacao de mulheres em idade fertil. Nao conheco um paper no Brasil que tenha abordado esses elementos numa regressao de salarios, mesmo assim penso que podem nos ajudar a entender o problema de desigualdade de genero no mercado de trabalho.
Obrigado Caio, o seu excelente comentario me fez pensar sobre como a discriminacao poderia ser caracterizada por um conjunto de funcionamentos associados a praticas gerenciais...o problema maior eh que a discriminacao eh 'combatida' pelo risco moral dos discriminados(as). Tambem nao conheco nenhum paper sobre os elementos que voce citou, interessante...
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