sexta-feira, 11 de novembro de 2011

IDH: porque o PNUD está certo e o IPEA não

O IPEA criticou o IDH e o PNUD na sua nota técnica recém lançada (http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/nota_tecnica/111110_notatecnicapresi4.pdf). As críticas do IPEA se dividem em 4 grupos: i) ausência de informações sobre as fontes de dados utilizadas para informar a composição dos indicadores; ii) pouca transparência metodológica, impossibilitando a reprodução dos resultados obtidos; iii) falta de clareza das referências temporais das estatísticas; e iv) escolhas aleatórias e discricionárias de novos indicadores. 

A primeira crítica está claramente errada. O PNUD não produz nenhuma das informações que integra o cálculo do IDH. E diz claramente que as informações da educação são produzidas pela UNESCO, que as de saúde saem do Setor de População das Nações Unidas e que as de renda são produzidas pelas estimativas do FMI e OCDE. Os indicadores utilizados são sempre publicados no final dos relatórios e suas fontes são indicadas. Quem vê a crítica do IPEA parece acreditar que o PNUD produz os dados, o que não é o caso.

A segunda crítica, que fala da dificuldade de reprodução dos resultados, não está errada, mas é confusa. A mudança metodológica do IDH foi explicada em detalhes quando ela aconteceu, em 2010. Foi esmiuçada nos jornais ano passado e cada passo foi descrito para a população através dos meios de comunicação. O mesmo não se faz por exemplo, cada vez que se divulga o índice de Gini brasileiro, restando a dúvida recorrente na imprensa se todos os 'ricos' entram ou não nesse cálculo.Agora, que seria desejável ter as rotinas estatísticas disponibilizadas, nisso o IPEA tem razão, mas isso não justifica dizer que há pouca transparência metodológica no IDH quando o RDH de 2010 justificou em detalhes as mudanças. Talvez o IPEA tenha se atrapalhado com a notícia dada erroneamente por alguns jornais que houve mudança metodológica no IDH esse ano. Não houve. O que houve foi uma revisão de dados, o que acontece todos os anos.

A terceira crítica ao IDH, de que falta clareza, pode ser feita a uma ampla gama de indicadores nacionais e internacionais. Pode ser dita do próprio censo brasileiro, que largou primeiro informações estimadas e depois foi corrigindo com informações mais precisas. A crítica sugere que apenas o IDH não esclarece entre o que são dados estimados e dados reais (consolidados). Mas isso é uma prática geral. E uma prática na qual o PNUD não é diretamente envolvido pois trabalha com dados secundários. Mesmo assim está claro no RDH que os únicos dados estimados são os de renda, com base nas previsões do FMI, que são largamente respeitadas em todo o mundo. Outros dados são revisados pois muitas vezes eles resultam de aperfeiçoamento de modelos. Por exemplo, se o Brasil faz um censo a cada dez anos, não se pode ter dados novos anuais entre cada censo de expectativa de vida. O que se faz é um modelo que projeta essa evolução entre censos. Assim, o modelo é revisado sempre que surge alguma nova informação, como por exemplo, sobre incidência ou taxa de mortalidade de doenças particulares.

A quarta crítica, sobre escolhas aleatórias de indicadores, não procede. O IDH é calculado pelo HDRO em Nova Iorque. Parece que o técnico do IPEA que elaborou esse parecer ou não leu ou não deu muita importância para o Relatório de Desenvolvimento Humano de 2010, onde todas as mudanças metodológicas do IDH foram explicadas. Ou seja, o parecer ignora todas as explicações dadas em 2010. Afirma que o relatório utiliza novos indicadores. Mas se for no IDH esta afirmação está errada.

Quem lê essas considerações pode achar que considero desejável que essas críticas do IPEA não tivessem sido feitas. Pelo contrário. Ao explicitar suas críticas ao IDH o IPEA reafirma seus valores de transparência, que são também os valores do IDH e com certeza do próprio PNUD. Possibilita assim com que alguns equívocos e problemas de entendimento sejam discutidos e que se avançe na elaboração de um IDH cada vez mais útil não somente para o Brasil mas para todo o mundo.

2 comentários:

  1. Excelente post. Como o Ipea passou a contar com profissionais "preguicosos" desde 2003. Esse pessoal nao se dispoe a ler o relatorio antes de tecer comentarios - nao raro equivocados. Desde 2003 ha um grupo do Ipea abdicando do conhecimento tecnico em prol das demandas politicas que passaram a prevalecer na instituicao. Uma pena. Eh exatamente isso que torna este post tao valioso.

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  2. Obrigado Caio, eu fiquei com a impressao de que a pessoa que escreveu a nota tecnica nao conhecia muito bem o relatorio de 2010, ou que simplesmente nao o leu. Parece que o pessoal se guiou pelo o que foi dito no jornal, o que nesse caso foi equivocado na minha opiniao. Alem disso achei outras criticas vazias. A pena eh que gera conflito, quando instituicoes como o PNUD e IPEA deveriam estar trabalhando juntas, afinadas, em prol do pais, que tanto precisa...

    Obrigado pelos seus comentarios! Sharp and to the point!

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