sábado, 10 de dezembro de 2011

A revista Veja e Belo Monte: porque os números não importam

Com a manchete, 'O Nocaute das Estrelas', na capa da sua edição de 7 de dezembro, a revista Veja prestou um desserviço à democracia brasileira. Tomou lado em um debate perfeitamente legítimo no qual a participação de atores deve ser bem-vinda pelo seu potencial de engajamento da sociedade civil. Mais do que isso, tentou desqualificar e humilhar o lado dos artistas, como se não fosse legítima a preocupação que eles levantaram de uma maneira engajada, crítica e argumentativa. A Revista Veja não vê que se não fosse pelos artistas não teríamos os outros vídeos. Não teríamos a própria capa de sua revista. Não teríamos a possibilidade de discussão de um tema que é simbólico para o desenvolvimento sustentável do país.

A Veja criticou a fala de Marcos Palmeira que "Se não tiver energia, como é que eu vou ver televisão pra assistir minha novela?" Claro, artistas, conhecidos pela participação em novelas, usaram um argumento retórico relacionado a eles. Isso não foi visto. O argumento de que "reduzir a questão da demanda de energia no Brasil para assistir novela parece até piada" perde o elo apenas retórico usado pelos artistas. Pior, acusar os artistas de toscamente ignorar o conceito de energia limpa, perde também o ponto interessante que eles levantam de que mesmo uma energia 'tecnicamente ambientalmente limpa' pode não ser limpa quando tem custos humanos. Esse é um ponto interessante que resgata o significado completo da palavra sustentabilidade, o que tanto os estudantes de Campinas como a própria Veja perderam do todo. Isso não quer dizer que a reportagem da revista não levante pontos interessantes.

Mas tratar com desprezo o grupo de artistas ao dizer que foram "nocauteados pela lógica" ou que "viraram piada na web" ou tratar da "tagalerice bem intencionada dos atores" que soaram "ingênuas e equivocadas, quando não francamente constrangedoras" e de seu "desfile de desinformação" foi tratar com desrespeito uma posição completamente legítima a favor do meio-ambiente e da sustentabilidade. A revista Veja continua sendo uma das revistas mais lidas e mais importantes de nosso país e tem a responsabilidade, ou pelo menos deveria ter, de tratar com imparcialidade lados opostos de um debate que é importante para o futuro de todos nós.

Alguns números mesmo os considerados certos, como o custo da obra em R$ 30bi, possivelmente serão revistos. O importante nesse debate não é somente quem tem os números certos, pois o esclarecimento de quem tem razão é um resultado do próprio debate. O importante é respeitar os diferentes, ver os argumentos sem desqualificar quem os faz. Esse é o verdadeiro significado da sustentabilidade, que não pode ser concretizado sem a prática e tolerância democrática baseada no respeito às diferenças. Triste o que se viu.

2 comentários:

  1. A Veja me parece correta ao apontar artistas que não sabem o que dizem para defender a ecologia. Só o fato de alguém defender ou criticar algo não merece parabéns de ninguém.
    Merece parabéns sim a crítica consistentes, balizada por fatos e dados corretos.

    O que se vê no vídeo são artistas utilizando a simpatia e o crédito que possuem diante de uma população pouco informada sobre o tema para tentar manipulá-la com tolices que não se sustentam.
    Se eles querem fazer o debate justo, que estudem o tema e não apenas decorem textos posando de bons moços conscientes e antenados, politica e ecologicamente correto segundo a cartilha das ongs do bem.

    A Veja faz muito bem em desmascará-los. Debates que começam com mentiras, fazendo terrorismo de tema polêmico e induzindo os ouvintes a equívocos, como fizeram aqueles artistas, não são debates e sim fascismo mal disfarçado.

    Não se conscientiza nem se desperta ninguém para temas importantes apelando a mentiras.
    Que os tais artistas estudem antes da decoreba diante das câmeras. Como tod oartista eles tem a arte da enganação. Na ficção isso é bonito mas no mundo real é uma tremenda sacanagem com seus fãs fiéis.

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  2. Discordamos, como voce ja viu pelo o que eu escrevi. Mas fica dificil eu tentar engajar com seus argumentos, pois voce usou palavras muito fortes, assim como a Veja. Nao acho que em um debate publico algum lado tem que ser 'desmascarado'. Nao acho que o argumento dos artistas esta baseado em uma mentira. Nao acho que expor um ponto de vista para a populacao seja um 'fascismo'. Fascismo é negar o contraditório, é primeiro desqualificar o interlocutor sem engajar com os argumentos. Concordo com voce que sempre devemos lutar por ter os fatos corretos. Mas lembre-se que o desafio da sustentabilidade nao se resolve apenas com a conservacao ambiental. Precisamos de respeito aos proximos, precisamos construir consensos. Achar que se evolui sem isso é o verdadeiro crime na minha opinião.

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