sábado, 26 de novembro de 2011

520 mil novos casos de câncer em 2012

Uma mudança metodológica nas estimativas de casos nacionais de câncer e revisão de bases, feitas pelo Instituto Nacional do Câncer, não possibilitam avaliar se os casos de câncer aumentaram no Brasil. Eles eram de 489 mil em 2010 e estão previstos para 520 mil em 2012. O que sabemos é que o tipo de tumor mais comum tanto entre homens e mulheres é o de pele não-melanoma (incidência projetada de 71.490 para mulheres e 62.680 para homens). Importante dizer que esse tipo de câncer é de baixa letalidade. Depois, para as mulheres vem o câncer de mama (52.680) e para os homens o de próstata (60.180). A magnitude da incidência dos outros tipos de câncer, como de cólon e reto, cólon do útero, estômago, tireoide, ovário, cavidade oral, etc é bem menor. Para mais detalhes ver http://www.inca.gov.br/estimativa/2012

O método adotado, proposto por Black et at (1997), foca na razão incidência/mortalidade (I/M) do total de registros para uma determinada região obtida através do Sistema de Informações de Mortalidade que fornece o total de casos novos pela soma dos óbitos. As taxas de mortalidade são estimadas por regressão linear ou como o valor médio dos últimos 5 anos. É importante notar que de um lado a mortalidade é calculada com uma defasagem de dois anos, mas a incidência é dinâmica e atual, o que dificulta a comparabilidade.

No entanto, fica a percepção dada pelos casos de pessoas muito conhecidas no país, que o câncer está aumentando entre nós. Cabe ficar atento.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Viva o Capital Ético!!

Escrevo essa nota, atípica nesse blog que está sempre tratando de questões numéricas, em honra a um grupo muito querido de amigos das Nações Unidas. O conceito de capital, tão caro aos economistas e a muitos cientistas sociais, vem se expandindo desde seus primórdios: do capital físico (das máquinas), ao capital financeiro, passando ao capital natural (do meio-ambiente) e ao capital humano (da educação), chegando ao capital social (das relações interpessoais). Pois hoje, ficou claro para mim ao admirar o posicionamento ético desse grupo de pessoas, que poucas vezes falamos do 'capital ético', dos valores dos indivíduos e de como estes geram um conjunto de atributos, como confiança, sentimentos de reciprocidade, de cooperação, etc fundamentais ao uso das demais formas de capital. Fica aqui o registro dessa idéia (a qual seguramente muitos já pensaram antes....) como um manifesto.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

A história do IDH e a história do Censo

A cada novo lançamento do IDH o Governo Brasileiro reclama que os dados 'do PNUD' (erro, nenhum dado é 'do PNUD' que não produz as estatísticas) estão defasados. Com o lançamento quase simultâneo do IDH 2011 e dos dados parciais do Censo 2010, o que vemos é que eles contam a mesma história: a de um país que não dá atenção ao básico no seu desenvolvimento e que caminha a passos lentos. Não vou repetir aqui a história do IDH, mas apenas chamar atenção para um conjunto de estatísticas no Censo.

De 2000 a 2010 os domicílios com computadores pessoais passaram de 10,6% para 38,3%. Positivo. A posse de carros passou de 32.7% para 39.5%. OK. Avançamos na posse de bens de consumo duráveis, até alguns não tão essenciais a vida, como os computadores.  Mas quando olhamos para o básico vemos por exemplo que o saneamento, que de 1991 a 2000 passou de 54,4% a 62,2% de cobertura (ou seja, um avanço de quase 8 pontos percentuais). No período seguinte, em 2010, chegou a apenas 67,1% (isso é, um avanço de aproximadamente 5 pontos percentuais). Não se pode culpar a desaceleração no avanço do saneamento do Brasil, em um período tão longo como o de 10 anos, ao seu 'alto nível' de cobertura, quando 1 em 3 brasileiros vivem sem saneamento. 

A história da provisão de água potável é a mesma, senão pior. De 1991 a 2000, a cobertura subiu de 64,9% para 77,8% (um avanço de quase 13 pontos percentuais). Já na década seguinte, em 2010, subiu para 82,9% (um avanço de menos da metade, de 5 pontos percentuais). De fato, é sabido que à medida que as estatísticas tendem a universalidade, o avanço se torna mais difícil, mas esse não parece ser o caso da provisão de água e saneamento no Brasil.

A história que o Censo conta é a de um país com grandes avanços (todo o lado do Censo 'Pereirão vs Pereirinha' sobre o qual escrevi antes) mas cujo DNA da política pública continua descuidando do básico. Precisamos resgatar o básico, na saúde, na educação, na provisão dos bens públicos mais caros ao ser humano, como o saneamento e a água, para que possamos dizer que vivemos um país que se considere 'em desenvolvimento'. Nisso, de nada difere a mensagem do Censo daquilo que foi divulgado no IDH 2011.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

1.86%+38.7%+17.7%+80.8%+ 42%: O Censo Pereirão/Pereirinha

A divulgação do Censo pelo IBGE nos deu vários retratos da vida brasileira nesses últimos 10 anos. Mas talvez nada chame mais atenção, na minha opinião, do que a história de gênero que está se delineando no desenvolvimento do país. Caminhamos para um apartheid de gênero, com implicações sobre aspectos importantes da vida no país. Vejamos.

As principais manchetes positivas foram quase todas referentes ao papel da mulher no desenvolvimento. A taxa de fertilidade, que baixou do limite de reprodução da população de 2,1 filhos por mulher, é reflexo de um conjunto de elementos como um nível maior de escolaridade, maior participação das mulheres no mercado de trabalho e de um nível maior de aspirações das mulheres no país. Ponto positivo, assim como o aumento para 38,7% da mulheres que já são financeiramente responsáveis pelos seus domicílios. A redução de 18.8% em 2000 para 17.7% da taxa de gravidez na adolescência também é um sinal positivo. Juntos, esses números mostram uma evolução importante e justa da mulher no desenvolvimento humano brasileiro. É o lado 'Pereirão' do Censo (para quem sabe do que se trata a Novela da Glbo das 9hs), a imagem de um Brasil que trabalha, que estuda, que se dedica, que é dono ou dona, melhor dizendo, do seu próprio destino, para começar pelas suas decisões reprodutivas.

E para os homens? A manchete que mais chamou atenção na divulgação do censo foi a de que a violência mata mais homens que mulheres. De fato, entre os 20-24 anos, 80.8% são homens, o que se explica parcialmente pela violência dos homens e por acidentes de trânsito nos quais eles estão envolvidos. Além disso, há indícios de que a discriminação contra mulheres e negros não diminiu na sociedade brasileira, pois quando tratamos do mercado de trabalho eles ganham respectivamente apenas 70% e 54% da média de rendimento dos cara-pálidas. Essa é a imagem Pereirinha do Censo, a concepção de um Brasil violento, que estuda pouco, que é pouco gentil e que convive com a herança de discriminações.

Então o que esse Censo está dizendo? Em linhas gerais que precisamos olhar para o apartheid de gênero que está sendo criado no qual os homens estão caminhando para o ser 'o sexo frágil' do futuro, deseducado, violento, pouco humano. É preciso olhar para os meninos, educá-los de modo diferente. Estamos diante de um Brasilzão vs um Brazilzinho que somente pode ser equacionado com pesados investimentos na educação para o desenvolvimento humano

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

IDH: porque o PNUD está certo e o IPEA não

O IPEA criticou o IDH e o PNUD na sua nota técnica recém lançada (http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/nota_tecnica/111110_notatecnicapresi4.pdf). As críticas do IPEA se dividem em 4 grupos: i) ausência de informações sobre as fontes de dados utilizadas para informar a composição dos indicadores; ii) pouca transparência metodológica, impossibilitando a reprodução dos resultados obtidos; iii) falta de clareza das referências temporais das estatísticas; e iv) escolhas aleatórias e discricionárias de novos indicadores. 

A primeira crítica está claramente errada. O PNUD não produz nenhuma das informações que integra o cálculo do IDH. E diz claramente que as informações da educação são produzidas pela UNESCO, que as de saúde saem do Setor de População das Nações Unidas e que as de renda são produzidas pelas estimativas do FMI e OCDE. Os indicadores utilizados são sempre publicados no final dos relatórios e suas fontes são indicadas. Quem vê a crítica do IPEA parece acreditar que o PNUD produz os dados, o que não é o caso.

A segunda crítica, que fala da dificuldade de reprodução dos resultados, não está errada, mas é confusa. A mudança metodológica do IDH foi explicada em detalhes quando ela aconteceu, em 2010. Foi esmiuçada nos jornais ano passado e cada passo foi descrito para a população através dos meios de comunicação. O mesmo não se faz por exemplo, cada vez que se divulga o índice de Gini brasileiro, restando a dúvida recorrente na imprensa se todos os 'ricos' entram ou não nesse cálculo.Agora, que seria desejável ter as rotinas estatísticas disponibilizadas, nisso o IPEA tem razão, mas isso não justifica dizer que há pouca transparência metodológica no IDH quando o RDH de 2010 justificou em detalhes as mudanças. Talvez o IPEA tenha se atrapalhado com a notícia dada erroneamente por alguns jornais que houve mudança metodológica no IDH esse ano. Não houve. O que houve foi uma revisão de dados, o que acontece todos os anos.

A terceira crítica ao IDH, de que falta clareza, pode ser feita a uma ampla gama de indicadores nacionais e internacionais. Pode ser dita do próprio censo brasileiro, que largou primeiro informações estimadas e depois foi corrigindo com informações mais precisas. A crítica sugere que apenas o IDH não esclarece entre o que são dados estimados e dados reais (consolidados). Mas isso é uma prática geral. E uma prática na qual o PNUD não é diretamente envolvido pois trabalha com dados secundários. Mesmo assim está claro no RDH que os únicos dados estimados são os de renda, com base nas previsões do FMI, que são largamente respeitadas em todo o mundo. Outros dados são revisados pois muitas vezes eles resultam de aperfeiçoamento de modelos. Por exemplo, se o Brasil faz um censo a cada dez anos, não se pode ter dados novos anuais entre cada censo de expectativa de vida. O que se faz é um modelo que projeta essa evolução entre censos. Assim, o modelo é revisado sempre que surge alguma nova informação, como por exemplo, sobre incidência ou taxa de mortalidade de doenças particulares.

A quarta crítica, sobre escolhas aleatórias de indicadores, não procede. O IDH é calculado pelo HDRO em Nova Iorque. Parece que o técnico do IPEA que elaborou esse parecer ou não leu ou não deu muita importância para o Relatório de Desenvolvimento Humano de 2010, onde todas as mudanças metodológicas do IDH foram explicadas. Ou seja, o parecer ignora todas as explicações dadas em 2010. Afirma que o relatório utiliza novos indicadores. Mas se for no IDH esta afirmação está errada.

Quem lê essas considerações pode achar que considero desejável que essas críticas do IPEA não tivessem sido feitas. Pelo contrário. Ao explicitar suas críticas ao IDH o IPEA reafirma seus valores de transparência, que são também os valores do IDH e com certeza do próprio PNUD. Possibilita assim com que alguns equívocos e problemas de entendimento sejam discutidos e que se avançe na elaboração de um IDH cada vez mais útil não somente para o Brasil mas para todo o mundo.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

IDH: subiu ou desceu?


Todos já viram: o Brasil subiu em 2011 uma posição no ranking do IDH em relação ao ano passado. Mas como pode, perguntarão alguns, se o Brasil estava ano passado na posição 73º e se ele ocupa agora a posição 84º? Não seria mais correto afirmar que o Brasil caiu 11 posições no ranking do IDH? Como justificar que a posição brasileira no IDH subiu (+1) quando parece evidente que ela caiu?

O fato é que as duas listas do IDH, a de 2010 e a de 2011, não são em princípio comparáveis porque a lista de 2010 trazia 169 países enquanto a lista desse ano traz 187, isto é, 18 países a mais do que no ano passado. Para que essa comparação fosse possível o PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) recalculou o valor de 2010 para essa lista maior de 187 países, com dados atualizados, e somente a partir disso procedeu a uma comparação. Incluindo 9 países (como Cuba, Líbano e Dominica, entre outros) que entraram na frente do Brasil nessa nova lista, o país estaria em 2010 na posição de 85º, tendo subido para 84º em 2011 por efeito de seu relativo crescimento da renda e expectativa de vida. 

Refletindo, esse procedimento técnico de atualização das listas para que elas se tornem comparáveis tem o efeito prático de 'faturar a conta' de algumas mudanças no ranking no ano anterior (que já foi divulgado) em nome da preciosidade técnica. Nesse ano, faturou a conta de que nove países entraram na frente do Brasil no ranking. Por outro lado, ela reduz a transparência do ranking. O cidadão comum perde poder ao não poder comparar o ranking de um ano com o ranking do outro. E o pior: talvez, no final das contas, o preciosismo técnico esteja errado, pois a conta se faz 'de cima para baixo' e nesse sentido a distância entre o Brasil e a Noruega aumentou e não diminuiu de 2010 para 2011.