terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Em defesa do BBB


Talvez alguns amigos se choquem. Mas vou defender o BBB. Não porque ache o programa bom. Pelo contrário. Raramente vi o programa na minha vida. Particularmente, não vejo nada de interessante nele. Fico surpreso por aqueles entre nós que parecem que somente agora, depois de uns 11 anos, descobriram que o programa é ruim. Acho que nem a emissora que o produz se esforçaria muito em argumentar que o programa é bom. É apenas um produto, como outro, eles diriam, como um frango cheio de antibiótico, um suco cheio de acidulantes, ou uma lâmpada feita para durar menos de 2mil horas (quando poderia durar mais de 10mil).

Eu confesso que não podia esperar nada de um programa que não vejo. Mas recebi, assim como muitos de nós, um tsunami de mensagens  sobre estupro desde o episódio recente do BBB. Entendi, não sei se corretamente, que o ‘sexo sem consenso válido’ foi execrado pela mídia. Que bom! Parece algo trivial, mas pensem que bem pode fazer para quem acha o estupro, em todas suas nuances, 'normal'....

Tristemente, nosso país não tem estatísticas unificadas sobre estupro (‘rape’ em inglês). Por curiosidade, bisbilhotei algumas estatísticas de estupro no UNODC (United Nations Office on Drugs and Crime) e como esperava não havia nada sobre o Brasil!

Sabemos que no Caribe a taxa de estupro (dada para cada 100.000 pessoas) é altíssima (melhor omitir), que no México foi de 13.3 e nos Estados Unidos 28.6 em 2009 e que tanto Argentina como Chile tiveram para 2008 taxas respectivas de 8.5 e 13.3, que são por sua vez altíssimas quando comparadas com as do Quênia e Mozambique de 2.1 e 0.2, sugerindo que o problema da subnotificação distorce dramaticamente as estatísticas desse tipo.

No Brasil, o que de melhor temos são algumas estatísticas estaduais produzidas por institutos vinculados a Secretarias de Segurança Pública. Sabemos que as taxas de estupro estão em alta e que crianças e adolescentes são as maiores vítimas de estupro. Repito: sabemos que as taxas de estupro estão em alta e que crianças e adolescentes são as maiores vítimas de estupro. Mas não muito mais que isso. Os números de estupro são díspares. Talvez o mais incrível seja a estimativa de que 1 mulher é estuprada no Brasil a cada 12 segundos.

O problema é seríssimo. O programa não. Mas se ele, com toda as restrições que tem, serviu para que algumas pessoas parem para pensar, no conforto de suas casas, talvez algumas em situações não tão confortáveis, que o estupro é inaceitável e que é crime, talvez ele tenha servido para algo mais do que ser apenas mais uma constatação da nossa torpez como seres humanos.

14 comentários:

  1. flávio, como sempre corajoso, porque vais contra o senso comum que não ver ou viu, vivemos num pais sem leitores e os poucos que leem não falam o que pensam ou assistem, por conveniência ou medo da avaliação pública. Tivemos um caso de abuso, assédio, agressão no sentido mais profundo, mesmo que não explicito, mesmo assim, a imprensa, os formadores de opinião e a direção da globo trataram como algo tolerável. Não é e nunca será. Enfim, obrigado por tratar o tema. abraço, s.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado pela sua mensagem. Confesso que vi com horror hoje alguns comediantes brincarem com o estupro, uma violencia denigrante, poucas vezes percebida como tal. Bem como voce disse, 'nao eh e nunca sera', obrigado voce pela mensagem, abracos, Flavio

      Excluir
  2. Oi Flávio, tendo a concordar com seus motivos a favor do BBB: discutir um assunto sério que é o estupro. Mas não sei se isso torna o BBB civicamente defensável. Explico-me. Movido pelo auê assisti ontem à reprise da entrevista de apresentação dos participantes. A entrevistadora queria muito saber quais seriam os limites (éticos) dos futuros contendores para ganhar o jogo: nenhum, foi a resposta de vários; e a estratégia: fazer qualquer coisa, de tudo, qualquer coisa mesmo. Daí aquela "espiadinha" lasciva do Bial adquire outra dimensão: uma dimensão educacional, digamos. Onde o incentivo ao excesso consumo de bebidas alcoólicas, à superexposição e ao sexo se misturam para dar o "clima" que levou ao estupro. Ele tinha fortes incentivos para acontecer. E isso são valores que passam a ser legitimados pela rede Globo, uma concessão pública, para todo Brasil em horário nobre. Enfim, o programa deveria ser banido da TV aberta, segundo penso, porque os valores que ele ensina e repercute são essencialmente ruins.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Salve Fabian! Concordo. Mas em que esses valores diferem daqueles correntes entre a maioria da populacao? Tudo o que voce disse ai, o excesso de consumo de bebidas alcoolicas, a superexposicao e ao sexo, e mais ainda, o consumismo, materialismo, culturismo e tantos outros 'ismos'...nao faz exatamente parte do 'status quo'? Em que as festas do BBB sao diferentes da festa 'do resto do B'? O problema para mim, de verdade, nao eh o BBB, mas quem acha interessante o BBB, seja pela razao que tiver. Fiquei 2 1/2 anos trabalhando em um relatorio sobre valores, nao acho que podemos regula-lo a nao ser com educacao de qualidade...acho que estamos rodeados de outros programas (melhor nao cita-los pois a lista eh longa) com os mesmos valores...se nao tivessem audiencia nao estariam la...efeito 'elite da tropa'...

      Excluir
  3. Oi Flávio! também não assisto o programa e observei alguns comentários muito fortes (sobre o tipo de mulher que seria a moça e sobre a suposta falta de consenso no ato). O que eu considero errado no caso é a realização de toda essa comoção (tirar o participante e abrir inquérito) sem a menina ter prestado queixa do abuso. Acredito que ela poderia estar dando um exemplo grande para as mulheres brasileiras ao mostrar a sua situação de vítima, mas para as mulheres normais, sem a denúncia a polícia, fica impossível descobrir e até punir o agressor.

    No mais, concordo contigo.

    Abraço

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi Tanise, a menina nao ter prestado queixa de abuso eh o retrato do Brasil. E uma grande lastima, concordo inteiramente com voce, por uma oportunidade perdida!

      Excluir
  4. Oi, Flávio. Também acho que a discussão levantada é totalmente válida. Mas, ao mesmo tempo que muitos pararam pra pensar que o estupro é crime e inaceitável, foi com muita tristeza que vi muitos comentários justificando a atitude dele. Pessoas achando que ela mereceu o que aconteceu, que ela provocou, achando normal tudo isso. Aí percebemos o grau de machismo ainda existente na nossa sociedade. Inclusive mulheres machistas dizendo que a culpa foi da moça que "provocou, bebeu demais, tava querendo isso mesmo".

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Infelizmente eh o que parece que somos, como sociedade. O fato dessas pessoas pensarem essas barbaridades eh o que esta por tras das acoes e do aumento das estatisticas de estupro, segundo os institutos especializados. Eh muito triste mesmo. Mas ha que ser intolerante com esse tipo de comentario, na minha opiniao.

      Excluir
  5. Oi Flavio! Concordo que o tal programa é nada mais nada menos do que o reflexo de "nossa torpez como seres humanos", mas não vejo em tuas palavras uma "defesa" ao mesmo, pois dizer que é apenas um produto como qualquer outro não considero uma refutação. Talvez a reação ao episodio, revele mais uma resposta impulsiva do que o resultado de um pensar. E, apesar de saber da dificuldade de regular valores penso ser fundamental buscar a fixação de um mínimo ético exigível para a sociedade (ainda que não estático e exauriente). Abraço.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Salve Rodrigo, bons pontos! Eu qualifiquei de 'defesa' pois tentei ver algo bom no episodio, e tambem porque nao acho que se deva proibir esse ou qualquer outro programa. Dizer que 'eh um produto como qualquer outro' foi para confrontar com o fato de que nao nos indignamos, como agora nesse caso, com produtos de baixa qualidade. Apenas nao os compramos. Eu considero 'valores' as bases de qualquer desenvolvimento humano e por isso mesmo vejo com horror o falso moralismo e a hipocrisia em parte dessa discussao. Ja a questao da regulacao de valores, eh um ponto de partida natural, para um 'rapaz direito' como voce...rsrsrs, mas acredito tambem na educacao, muito na linha do Aristoteles! Grande abraco

      Excluir
  6. Prezado Flávio, li com atenção o teu artigo que nos traz a sensatez e a tolerância, características que reconheço na tua pessoa. Apesar disso gostaria de contribuir com outros argumentos. Já foi dito aqui que a comunicação é uma concessão pública e, devido a isto, as empresas que possuem esta concessão devem seguir certas regras. Penso que transmissão de um crime hediondo a nivel nacional e em horário nobre deve (ou deveria)ser considerado como a extrapolação destes limites. Como bem demonstraste as mulheres já sofrem bastante com este tipo de crime e o fato deste virar atração reforça e, principalmente, retroalimenta a violência às mulheres que já existe na sociedade. Sobre o argumento de ser "um produto como qulquer outro" não penso que justifique a existência de algo ruim o fato que só o compra quem quer. Este comprador pode acabar lesando a sociedade toda no futuro (fumante que acaba morrendo de câncer no SUS) fora que não sou da opinião de que devamos alocar recursos produtivos na produção de porcarias (nisto o BBB se enquadra perfeitamente). Um forte abraço! Martin

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi Martin, bons argumentos, mas tenho duvidas se a comunicacao eh uma concessao pública per se, principalmente no século XXI, com a internet. Quando eu penso por exemplo em programas para crianças, sem dúvidas. Mas entendo também que existem canais de lutas, mulheres, etc circulando, todos como concessão pública. A diferença no debate talvez seja entre regulação e proibição. Eu concordo com você na linha da regulação, mas assim como acho que nosso frango não deveria ser puro antibiótico, alguns vegetais puro pesticida, etc. Bom ponto, de qualquer modo.

      Excluir
  7. Oi Flavio,

    Gostei do seu artigo. Eu tenho uma pergunta no entanto. Nao pretendo defender o suposto transgressor. Ha ao menos uns dez anos as pessoas que ja assistiram ao BBB sabem que os particpantes desse programa tendem a exagerar na bebida nas tais festas, que os rapazes se comportam como qualquer mamifero macho e que muitas vezes a paquera comeca no quintal da casa e termina debaixo do "edredom". Mesmo sabendo de tudo isso a moca resolveu exagerar na bebida, ficar com o rapaz no quintal e o resto todo mundo sabe. Sera mesmo que podemos realmente chamar isso de estupro? Nao estou convencido. De qq maneira, concordo com o seu ponto de que o episodio levou a sociedade a refletir um pouco que seja sobre um assunto tao serio.

    Abraco.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Essa é uma complicação adicional, que você levanta. Eu infelizmente (ou felizmente...rsrsrs) não soube dos detalhes. Também não sei como terminou o episódio, pois parece que a moça acabou não reconhecendo o estupro...enfim...tudo uma lástima, mas claro, a sequencia já era prevista!!

      Excluir