domingo, 22 de janeiro de 2012

A qual classe social você pertence?

Somos um país de classe-média! 60% dos brasileiros já são classificados nessa categoria, seja lá como se chegue a esse veredito. A notícia, divulgada hoje, domingo 22 Jan, pela Folha, parece mais política do que técnica. Afinal, a reportagem não explica como os critérios são elaborados. Dado o ainda alto nível de desigualdade na distribuição de renda do país, esse é um ponto fundamental. Como definimos alguém como sendo ou não de classe média?

Na ausência de um estudo técnico que ajude a corroborar os resultados de hoje, depois de uma busca superficial pela internet, resolvi submeter-me ao teste do "a qual classe social você pertence?", do datafolha, colado a reportagem, como uma maneira (preguiçosa e pouco engenhosa, eu confesso) de descobrir os critérios que nos definem (ou não) como 'classe média'. Voilá!

TV em cores (será que ainda fabricam em P&B?), DVD player, rádios, banheiros, automóveis, empregadas mensalistas, máquina de lavar, geladeira freezer, escolaridade e renda famíliar......

Eu imagino que a renda está correlacionada com tudo o que há acima, exceto com a escolaridade (onde a correlação existe mas é imperfeita). Então por que a repetição? Fiz algumas simulações, mantive a escolaridade alta mas deixei de ter bens de consumo e renda alta....e ficou tudo dentro da 'classe média intermediária' -categoria pleonástica- que parece coração de mãe, pelo tamanho espaço que tem de acomodar grandes variações. As linhas de renda definidas ignoram que no Brasil a renda média dos 10% mais ricos é R$ 5.345, mas que a dos 1% mais ricos é de R$ 16.560. O que dizer então da categoria mais alta do estudo de R$ 27.251 por mês?

Essa discussão de classes parece um pouco sem classe.Classifica as pessoas pelo seu consumo, ignorando também que as classes são definidas em função de seu acesso a diferentes formas de capital (tirando a breve menção à educação). Trata o Brasil como um país de classe média como auto-referente, sem nenhuma menção a padrões de consumo de outros países. Ignora poder. Ignora bens efetivamente posicionais. Nos joga na privada (literalmente a perguntar pelo número de banheiros). Melhor chamar essa classificação de 'classe consumidora', mas não social....



2 comentários:

  1. Oi Flavio, apenas um par de comentarios. Os bens duraveis sao proxies para 'riqueza' enquanto renda capta fluxo. Geralmente utiliza-se analise fatorial (ou componentes principais) para sintetizar esses bens duraveis em um unico indicador. Para mim, tal indice eh pouco informativo porque mesmo com um nivel de renda baixo eh possivel financiar a aquisicao de bens duraveis pagando-se em inumeras vezes no Brazil. Entao, a aquisicao de bens duraveis deveria ser mais uma proxy para 'acesso a credito' do que para riqueza, mas enfim. Alguem pode dizer, mas 'banheiro' nao eh bem duravel? Verdade, mas a proporcao de familias com banheiro exclusivo ainda eh um bem de luxo para muitas familias brasileiras. Having said that, concordo que tais classificacoes informal muito pouco, sobretudo quando, como voce bem destacou, a desigualdade na distribuicao de varios desses indicadores eh consideravel.

    Abs.

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    1. Pensando sobre o que voce disse Caio, acho que ha uma distincao importante sobre o conceito de 'classe' que ficou perdida na minha discussao: a ideia de que classes se reproduzem. Nesse caso, deveriamos estar dando um foco grande na questao da educacao, como um capital que garente a reproducao da 'classe' e nao no consumo. Quando pensamos originalmente em riqueza, pensamos, acredito eu, em terras, imoveis, etc, que sao todos formas de capital. Conceitualmente, capital esta mais proximo do conceito de riqueza do que o simples consumo, mesmo de bens duraveis (que hoje em dia ja sao cada vez menos duraveis...rsrsrs) Grande abraco

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