A imagem da sexta economia do mundo é uma ilusão. Somos ainda um país muito desigual, no qual milhões vivem ainda indignamente, nosso desenvolvimento humano tem andado a passos lentos e ao invés de encararmos os fatos de frente preferimos adotar uma atitude ‘me engana que eu gosto’, frente a algumas estatísticas que são feitas ‘para inglês ver’ e que tem pouca materialidade no dia-a-dia de milhões de brasileiros.
A sexta economia do mundo produziu em 2011 US$ 2,5 bilhões. No entanto, quando dividimos esse valor pela população, vemos que a renda per capita brasileira representa apenas a 77º posição no ranking mundial, sugerindo que o padrão de vida médio no país ainda é significativamente inferior ao padrão europeu. A situação piora quando comparamos com o ranking brasileiro no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), na qual o país cai para a posição de número 84º. Além disso, a velocidade de crescimento do IDH vem caindo desde o início da década passada até chegar ao atual 0.69% de crescimento ao ano. O Brasil vem acumulando uma dívida de saúde e educacional com sua população que impede avanços mais consistentes no padrão de vida da população.
Ao olhar para o passado, vemos que o Brasil de 2010 não pode ser comparado, por exemplo, a França, Holanda ou Inglaterra de vinte anos atrás. Esses países já tinham um nível de renda per capita 60-80% superior ao nível brasileiro atual, indicando que 20 anos pode não ser um prazo suficiente para convergência absoluta entre países. A atual diferença de uma renda per capita de menos de US$ 13mil por ano no Brasil, que contrasta com a renda de quase US$ 40mil da Inglaterra é apenas uma pequena parte dessa história. Dado o ainda alto nível de desigualdade da distribuição de renda no Brasil (com um índice de gini de 0.53), vemos que mesmo essa renda média pode significar pouco para a maioria da população. Os últimos dados do Censo nos mostram que os 10% mais ricos no Brasil tem 42.8% da renda e os 10% mais pobres apenas 1.3%.
Em 1990 França, Holanda e Inglaterra já possuíam um alto nível de escolaridade, medido por anos médios de estudo na faixa de 12, 11,1 e 11,7 anos, respectivamente, em contraste com os 7,2 anos atuais para o Brasil. Faltam anos de estudo ao brasileiro. Falta, ainda mais, qualidade nesses anos. De fato, a falta de progresso na agenda da qualidade da educação no Brasil é evidência de um futuro comprometido.
Apesar dos avanços sociais recentes, o Brasil ainda tem 14,6 milhões de analfabetos (9,6% da população em 2010 acima de 15 anos), 30% da sua população ainda sofre de algum tipo de insegurança alimentar e 8.5% sobrevive com menos de R$70 mensais. Ainda existem 17.1% dos brasileiros sem provisão regular de água e 32.9% sem saneamento.
É importante mencionar que a natureza do crescimento econômico brasileiro recente é baseada na produção de commodities, longe das matrizes produtivas do mundo desenvolvido que são intensivas em ciência&tecnologia e capital. Para chegar ao padrão europeu há que se tratar com mais seriedade a questão da ciência&tecnologia e educação de qualidade para um modelo produtivo mais includente.
Em resumo, o padrão de vida no Brasil ainda é muito mais baixo do que o europeu há 20 anos atrás, os avanços sociais são importantes mas ainda lentos e não investimos em educação de qualidade como outros países que se tornaram desenvolvidos fizeram. A idéia de ter um padrão europeu seduz, mas também pode nos afastar da verdade de onde estamos e de quem somos.
Gostei do texto Flavio. Concordo com os pontos que levantou. Realmente nao sei porque se comemorou tanto essa informacao de que somos a sexta economia. Dado os tamanho dos paises, ate acho que demorou muito para isso acontecer. Completamente nonsense para mim, mas enfim.
ResponderExcluirO interessante eh que a palavra comemorar foi usada repetidas vezes. O argumento sobre o tamanho do pais nao foi usado nenhuma vez, incrivel mesmo. Voce vai se surpreender muito quando regressar com a falta de espirito critico na imprensa...Aproveite!
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