quarta-feira, 25 de abril de 2012

A Idéia de Justiça (Zero Hora, 25 abril 2012)

Vivemos em mundo injusto. A fome, a ignorância, a violência, o abandono das crianças e idosos, as escolas que não ensinam e os hospitais que não curam, assim como as guerras, as discriminações contra a mulher, contra pessoas por sua cor de pele, são todas, entre tantas outras, expressões desse mundo injusto que vivemos. Mundo injusto? Mas o que é a justiça? E o que temos a ver com isso? Questões sobre a justiça tem sido feitas desde os primórdios das civilizações e cada nova época se autodefine de acordo com as respostas que escolhe para pensar o significado e a importância da justiça.

No mundo contemporâneo ainda vivemos sobre a forte influência do liberalismo político filosófico, marcado pela contribuição de um dos maiores filósofos do direito do século passado chamado John Rawls. O seu liberalismo defende o papel das instituições como promotoras de justiça através da provisão de bens essenciais (ou primários) para a cidadania, visando promover indivíduos autônomos. A justiça, segundo ele, precisa de imparcialidade a qual só pode ser atingida se ignorarmos as circunstâncias dentro das quais as pessoas e instituições operam . 

No entanto, essa visão estritamente liberal começou a sofrer ataques por promover sociedades que são tolerantes a todos tipos de liberdades, sem questioná-las, e que além disso promovem uma ética individualista de pessoas desengajados, na qual as pessoas não se importam mais umas com as outras. 

Um dos maiores críticos atuais do pensamento Rawlsiano é o Professor Amartya Sen. Prêmio Nobel em Economia em 1998, o Professor Sen mudou a natureza do debate sobre o que é justiça ao publicar em 2009 o seu livro ‘A Idéia de Justiça’, a maior referência no pensamento contemporâneo sobre o significado de se pensar na justiça desde a publicação do ‘Uma Teoria da Justiça’ de Rawls em 1971.

O Professor Sen argumenta contra a idéia de justiça ideal proposta por Rawls. Diferentemente, mostra como na vida real as pessoas ‘lutam contra as injustiças’ e como as circunstâncias de cada um fazem parte desse desafio cotidiano. Assim, a justiça não importa pela sua teoria, mas pela sua prática. A justiça tem a ver com a maneira que vivemos, ela é uma construção diária. Menos importa o aparato formal das instituições do que aquilo que sentimos, pois está nesse poder de discernimento e cuidado com o ‘outro’ a chave para sociedades menos injustas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário