Vivemos em
mundo injusto. A fome, a ignorância, a violência, o abandono das crianças e
idosos, as escolas que não ensinam e os hospitais que não curam, assim como as
guerras, as discriminações contra a mulher, contra pessoas por sua cor de pele,
são todas, entre tantas outras, expressões desse mundo injusto que vivemos. Mundo
injusto? Mas o que é a justiça? E o que temos a ver com isso? Questões sobre a
justiça tem sido feitas desde os primórdios das civilizações e cada nova época
se autodefine de acordo com as respostas que escolhe para pensar o significado
e a importância da justiça.
No mundo
contemporâneo ainda vivemos sobre a forte influência do liberalismo político
filosófico, marcado pela contribuição de um dos maiores filósofos do direito do
século passado chamado John Rawls. O seu liberalismo defende o papel das
instituições como promotoras de justiça através da provisão de bens essenciais
(ou primários) para a cidadania, visando promover indivíduos autônomos. A
justiça, segundo ele, precisa de imparcialidade a qual só pode ser atingida se
ignorarmos as circunstâncias dentro das quais as pessoas e instituições operam
.
No entanto, essa
visão estritamente liberal começou a sofrer ataques por promover sociedades que
são tolerantes a todos tipos de liberdades, sem questioná-las, e que além disso
promovem uma ética individualista de pessoas desengajados, na qual as pessoas
não se importam mais umas com as outras.
Um dos
maiores críticos atuais do pensamento Rawlsiano é o Professor Amartya Sen.
Prêmio Nobel em Economia em 1998, o Professor Sen mudou a natureza do debate
sobre o que é justiça ao publicar em 2009 o seu livro ‘A Idéia de Justiça’, a
maior referência no pensamento contemporâneo sobre o significado de se pensar
na justiça desde a publicação do ‘Uma Teoria da Justiça’ de Rawls em 1971.
O Professor
Sen argumenta contra a idéia de justiça ideal proposta por Rawls.
Diferentemente, mostra como na vida real as pessoas ‘lutam contra as
injustiças’ e como as circunstâncias de cada um fazem parte desse desafio cotidiano.
Assim, a justiça não importa pela sua teoria, mas pela sua prática. A justiça
tem a ver com a maneira que vivemos, ela é uma construção diária. Menos importa
o aparato formal das instituições do que aquilo que sentimos, pois está nesse
poder de discernimento e cuidado com o ‘outro’ a chave para sociedades menos
injustas.
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