terça-feira, 22 de maio de 2012

Onde está o carinho no Brasil Carinhoso?

O programa Brasil Carinhoso merece ser elogiado por várias razões. A primeira é que põe o 'dedo na ferida' ao localizar no problema da primeira infância uma das grandes fontes de injustiça no Brasil. A pobreza inicial que debilita as crianças é a porta de entrada para uma educação deficiente e para a pobreza crônica. De fato, ao focar no grupo das crianças de 0-6 anos, o programa deve reduzir em 62% a extrema pobreza nesse grupo, com um impacto de diminuição geral de 40% da pobreza extrema em todo o país.

A segunda razão é que o programa deve trabalhar políticas transversais, como a construção de 1500 creches esse ano, chegando a mais 6 mil creches até 2014. Além disso, uma maior atenção dos investimentos na área de saúde (para reparar por exemplo o déficit que 20% das crianças brasileiras têm de vitamina A, entre outros) focados na primeira infância deve beneficiar até 2 milhões de famílias.

Entretanto, em grande parte, o programa Brasil Carinhoso parece mais do mesmo. Ele não foge na sua estrutura lógica e essência do que já foi exposto pelo Brasil sem Miséria (que opera dentro da lógica do Bolsa Família): sua base é uma transferência de renda, centrada no conceito de pobreza extrema (balizada por R$70) e que resolve em um 'canetaço' o problema da pobreza quase que imediato. Uma vez que as transferências de renda são ampliadas seguindo os critérios mais diversos (não que não tenham mérito individual), o problema deixa de existir. Mas verdadeiramente deixa?

O problema da primeira infância, como descrito contemporaneamente por expoentes como o Professor James Heckman, da Universidade de Chicago é um problema de longo prazo. Para ser atacado é preciso atenção diferenciada com políticas para as famílias, que são muito mais complexas do que o que pode ser atingido por transferências de renda (por mais generosas que fossem, o que não é o caso) e por políticas escolares de promoção de aspectos cognitivos e não-cognitivos das crianças. Nesse sentido, talvez fosse muito mais útil para o desenvolvimento das crianças pobres de 0 a 6 anos se elas recebessem livrinhos ou brinquedos didáticos junto com o Bolsa Família. É muito difícil que famílias em extrema pobreza gastem seus parcos recursos com bens que podem parecer 'de luxo', mas que sabemos são fundamentais para o desenvolvimento infantil.

As crianças desenvolvem mais suas habilidades linguísticas até os três anos de idade, um passo importante para a alfabetização posterior. A importância da linguagem para a predisposição das crianças a escola não pode ser medida por variáveis monetárias. As crianças precisam de carinho e de atenção de seus pais ou responsáveis, materializados no que chamaríamos estilos parentais com autoridade & participação e práticas parentais positivas, para se desenvolverem. Nossas crianças precisam de um Brasil Carinhoso que tenha carinho como seu ingrediente principal, aquele que somente pais e professores(as) podem dar através de seus cuidados e atenções, e não transferências monetárias, por mais que elas sejam úteis na redução da pobreza extrema. Falta um entendimento do papel do carinho na promoção do desenvolvimento humano no Brasil Carinhoso.

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