Somos um país de classe-média! 60% dos brasileiros já são classificados nessa categoria, seja lá como se chegue a esse veredito. A notícia, divulgada hoje, domingo 22 Jan, pela Folha, parece mais política do que técnica. Afinal, a reportagem não explica como os critérios são elaborados. Dado o ainda alto nível de desigualdade na distribuição de renda do país, esse é um ponto fundamental. Como definimos alguém como sendo ou não de classe média?
Na ausência de um estudo técnico que ajude a corroborar os resultados de hoje, depois de uma busca superficial pela internet, resolvi submeter-me ao teste do "a qual classe social você pertence?", do datafolha, colado a reportagem, como uma maneira (preguiçosa e pouco engenhosa, eu confesso) de descobrir os critérios que nos definem (ou não) como 'classe média'. Voilá!
TV em cores (será que ainda fabricam em P&B?), DVD player, rádios, banheiros, automóveis, empregadas mensalistas, máquina de lavar, geladeira freezer, escolaridade e renda famíliar......
Eu imagino que a renda está correlacionada com tudo o que há acima, exceto com a escolaridade (onde a correlação existe mas é imperfeita). Então por que a repetição? Fiz algumas simulações, mantive a escolaridade alta mas deixei de ter bens de consumo e renda alta....e ficou tudo dentro da 'classe média intermediária' -categoria pleonástica- que parece coração de mãe, pelo tamanho espaço que tem de acomodar grandes variações. As linhas de renda definidas ignoram que no Brasil a renda média dos 10% mais ricos é R$ 5.345, mas que a dos 1% mais ricos é de R$ 16.560. O que dizer então da categoria mais alta do estudo de R$ 27.251 por mês?
Essa discussão de classes parece um pouco sem classe.Classifica as pessoas pelo seu consumo, ignorando também que as classes
são definidas em função de seu acesso a diferentes formas de capital (tirando a breve menção à educação). Trata o Brasil como um país de classe média como auto-referente, sem nenhuma menção a padrões de consumo de outros países. Ignora poder. Ignora bens efetivamente posicionais. Nos joga na privada (literalmente a perguntar pelo número de banheiros). Melhor chamar essa classificação de 'classe consumidora', mas não social....
A frase original de Benjamin Disraeli de que "existem 3 tipos de mentiras: mentiras, mentiras deslavadas e estatisticas" é um lembrete para a importância de olharmos com mais atenção para o que as estatísticas dizem e o que significam para nossas vidas. A isso se destina esse blog.
domingo, 22 de janeiro de 2012
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
Em defesa do BBB
Talvez
alguns amigos se choquem. Mas vou defender o BBB. Não porque ache o programa
bom. Pelo contrário. Raramente vi o programa na minha vida. Particularmente,
não vejo nada de interessante nele. Fico surpreso por aqueles entre nós que
parecem que somente agora, depois de uns 11 anos, descobriram que o programa é
ruim. Acho que nem a emissora que o produz se esforçaria muito em argumentar
que o programa é bom. É apenas um produto, como outro, eles diriam, como um
frango cheio de antibiótico, um suco cheio de acidulantes, ou uma lâmpada feita
para durar menos de 2mil horas (quando poderia durar mais de 10mil).
Eu confesso
que não podia esperar nada de um programa que não vejo. Mas recebi, assim como
muitos de nós, um tsunami de mensagens sobre estupro desde o episódio recente do BBB.
Entendi, não sei se corretamente, que o ‘sexo sem consenso válido’ foi execrado
pela mídia. Que bom! Parece algo trivial, mas pensem que bem pode fazer para quem acha o estupro, em todas suas nuances, 'normal'....
Tristemente, nosso país não tem estatísticas unificadas sobre estupro (‘rape’
em inglês). Por curiosidade, bisbilhotei algumas estatísticas de estupro no
UNODC (United Nations Office on Drugs and Crime) e como esperava não havia nada
sobre o Brasil!
Sabemos que
no Caribe a taxa de estupro (dada para cada 100.000 pessoas) é altíssima (melhor omitir), que
no México foi de 13.3 e nos Estados Unidos 28.6 em 2009 e que tanto Argentina
como Chile tiveram para 2008 taxas respectivas de 8.5 e 13.3, que são
por sua vez altíssimas quando comparadas com as do Quênia e Mozambique de 2.1 e 0.2,
sugerindo que o problema da subnotificação distorce dramaticamente as
estatísticas desse tipo.
No Brasil,
o que de melhor temos são algumas estatísticas estaduais produzidas por
institutos vinculados a Secretarias de Segurança Pública. Sabemos que as taxas
de estupro estão em alta e que crianças e adolescentes são as maiores vítimas
de estupro. Repito: sabemos que as taxas
de estupro estão em alta e que crianças e adolescentes são as maiores vítimas
de estupro. Mas não muito mais que isso. Os números de estupro são díspares.
Talvez o mais incrível seja a estimativa de que 1 mulher é estuprada no Brasil
a cada 12 segundos.
O problema
é seríssimo. O programa não. Mas se ele, com toda as restrições que tem, serviu
para que algumas pessoas parem para pensar, no conforto de suas casas, talvez
algumas em situações não tão confortáveis, que o estupro é inaceitável e que é
crime, talvez ele tenha servido para algo mais do que ser apenas mais uma constatação
da nossa torpez como seres humanos.
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
Guerra ao Tecnicismo! Rankings do Brasil no IDH
Os rankings nominais do IDH, isto é, aqueles ranking publicados a cada ano, tem sido declarados oficialmente incomparáveis pelos técnicos responsáveis pelo índice. Justificativas para tal existem, mas minam o sentido da criação do próprio IDH, que é o fortalecimento da razão pública. O cidadão comum não está mais autorizado a comparar o que acontece com o ranking do seu país de um ano para outro. Em geral os dados são revisados com cada novo lançamento e modificações importantes de ranking podem ficar soterradas nesses movimentos. São 'faturadas' no ano anterior corrigido, mas que de fato não existem. Sem querer entrar nesse momento inteiramente nesse erro, seguramente involuntário do tecnicismo, que cria rankings atualizados que não existiram para fazer as comparações anuais e o cálculo das variações do IDH, levanto aqui apenas dois pontos para o Brasil.
Primeiro, se compararmos os rankings nominais do país, ao longo desses últimos 21 anos, no gráfico abaixo, vemos que o ranking do país tem uma tendência de piora, culminando com o 84o nesse último ranking.
Mas aí, claro, os técnicos podem, com justiça rebater que o número de países no ranking não tem se mantido constante e que por essa razão com um número maior de países seria errado fazer a comparação acima. No entanto, cabe notar que de 1993 a 2007 pouca oscilação houve no número de países da lista e mesmo assim o Brasil não experimentou nenhum progresso substantivo. Por exemplo, o país já foi 58o em 1996, com 174 países na lista, caindo para 79, três anos depois com o mesmo número de países integrantes.
Não vou discutir agora se faz mais sentido ter um ranking cuja inspiração seja 'mirar as estrelas' ou 'fugir da escuridão', mas é interessante, como o mostra o gráfico a seguir, olhar como mesmo fazendo a distância inversa do IDH (isto é comparando o Brasil de baixo para cima - o argumento do 'fugindo da escuridão') não apresentamos progresso no ranking nesses últimos anos. (No gráfico quanto maior a barra, maior a distância do ranking Brasileiro com o do último colocado, logo melhor). Tivemos uma grande onda de progresso no início dos anos 90, uma queda no início dos 2000, um progresso novamente a taxas pequenas e uma situação de estagnação, como a que vivemos hoje, basta olhar as últimas barras do gráfico abaixo. Então, parece que esse argumento do número de países, para o caso brasileiro em uma perspectiva histórica, não vale.
Isso de modo algum quer dizer que o Brasil não possa se orgulhar de grandes realizações econômicas e sociais nesses últimos anos, mas que no que tange ao 'básico do desenvolvimento' (disso trata o IDH), que aí o país precisa olhar com mais cuidado para políticas que possam alavancar a saúde e educação no país, sem descuidar da necessidade de um crescimento econômico mais inclusivo.
Primeiro, se compararmos os rankings nominais do país, ao longo desses últimos 21 anos, no gráfico abaixo, vemos que o ranking do país tem uma tendência de piora, culminando com o 84o nesse último ranking.
Mas aí, claro, os técnicos podem, com justiça rebater que o número de países no ranking não tem se mantido constante e que por essa razão com um número maior de países seria errado fazer a comparação acima. No entanto, cabe notar que de 1993 a 2007 pouca oscilação houve no número de países da lista e mesmo assim o Brasil não experimentou nenhum progresso substantivo. Por exemplo, o país já foi 58o em 1996, com 174 países na lista, caindo para 79, três anos depois com o mesmo número de países integrantes.
Não vou discutir agora se faz mais sentido ter um ranking cuja inspiração seja 'mirar as estrelas' ou 'fugir da escuridão', mas é interessante, como o mostra o gráfico a seguir, olhar como mesmo fazendo a distância inversa do IDH (isto é comparando o Brasil de baixo para cima - o argumento do 'fugindo da escuridão') não apresentamos progresso no ranking nesses últimos anos. (No gráfico quanto maior a barra, maior a distância do ranking Brasileiro com o do último colocado, logo melhor). Tivemos uma grande onda de progresso no início dos anos 90, uma queda no início dos 2000, um progresso novamente a taxas pequenas e uma situação de estagnação, como a que vivemos hoje, basta olhar as últimas barras do gráfico abaixo. Então, parece que esse argumento do número de países, para o caso brasileiro em uma perspectiva histórica, não vale.
Isso de modo algum quer dizer que o Brasil não possa se orgulhar de grandes realizações econômicas e sociais nesses últimos anos, mas que no que tange ao 'básico do desenvolvimento' (disso trata o IDH), que aí o país precisa olhar com mais cuidado para políticas que possam alavancar a saúde e educação no país, sem descuidar da necessidade de um crescimento econômico mais inclusivo.
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
4.000 'deles' no Brasil. O Haiti é aqui ?
O Brasil tomou medidas para limitar a entrada de Haitianos no Brasil. Essa notícia deveria chocar a todos. O Haiti é um dos países mais pobres do mundo, que não chegou a se recuperar da guerra civil para entrar em caos no dia 12 de janeiro de 2010 quando sofreu um forte terremoto de escala 7. Mais que isso, o Haiti é o principal desafio da cooperação internacional brasileira no exterior, no qual o país tem investido diplomática e financeiramente já por vários anos em sua missão de cunho militar pacificadora. Por que então impor restrições à imigração, para um país como o Brasil que tem 192 milhões de habitantes e que nesse momento tem apenas 4.000 Haitianos nas regiões menos densamente povoadas do país? Vamos aos números.
O Haiti está na posição de número 158 no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), com uma expectativa de vida de 62.1 anos (10 anos a menos do que a brasileira), uma média de anos de estudo (dos maiores de 25 anos) de 4.9 anos, anos esperados de estudo (para as crianças que entram na escola) de 7.6 anos e uma renda nacional bruta per capita de US$ 1.123 (por cima, 10 vezes mais baixa que a brasileira). O Haiti é um país que continua em crise e é um país dos mais pobres do mundo.
Sua população é de 10.1 milhões. O Brasil poderia receber toda a população do Haiti em solo nacional se desejasse, por razões humanitárias. Os Haitianos oficialmente recebidos tem sido alocados para a região norte do país, para estados com densidade populacionais inferiores a 5 habitantes por km2 (o que é muito pouco, se compararmos com São Paulo que tem 170 habitantes por km2 ou o DF que está por volta de 450 habitantes por km2). Mas ao invés disso o Brasil prefere dispensar o único tipo de apoio que tem sido efetivamente utilizado pela sua população, que deve haver perdido de vez a esperança em missões internacionais, como a brasileira, a ponto de querer deixar seu próprio país.
Está certo que o tráfico ilegal de pessoas é um problema, mas ao invés de 'jogar o bebê fora junto com a água do seu banho', o Brasil poderia tentar organizar essa imigração de modo humanitário e ver nesse abandono do país uma razão para empenhar mais esforços, junto com a comunidade internacional, para acelerar as ações de reconstrução do Haiti, que tem ficado aquém das expectativas de todos. Pelo suor e dedicação de todos os brasileiros que já arriscaram suas vidas no Haiti, o Brasil deveria estar comprometido em fazer cada vez mais pelos Haitianos e não menos, como parece ser o caso. Por favor, corrijam-me se eu estiver errado. Eu gostaria de estar errado.
O Haiti está na posição de número 158 no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), com uma expectativa de vida de 62.1 anos (10 anos a menos do que a brasileira), uma média de anos de estudo (dos maiores de 25 anos) de 4.9 anos, anos esperados de estudo (para as crianças que entram na escola) de 7.6 anos e uma renda nacional bruta per capita de US$ 1.123 (por cima, 10 vezes mais baixa que a brasileira). O Haiti é um país que continua em crise e é um país dos mais pobres do mundo.
Sua população é de 10.1 milhões. O Brasil poderia receber toda a população do Haiti em solo nacional se desejasse, por razões humanitárias. Os Haitianos oficialmente recebidos tem sido alocados para a região norte do país, para estados com densidade populacionais inferiores a 5 habitantes por km2 (o que é muito pouco, se compararmos com São Paulo que tem 170 habitantes por km2 ou o DF que está por volta de 450 habitantes por km2). Mas ao invés disso o Brasil prefere dispensar o único tipo de apoio que tem sido efetivamente utilizado pela sua população, que deve haver perdido de vez a esperança em missões internacionais, como a brasileira, a ponto de querer deixar seu próprio país.
Está certo que o tráfico ilegal de pessoas é um problema, mas ao invés de 'jogar o bebê fora junto com a água do seu banho', o Brasil poderia tentar organizar essa imigração de modo humanitário e ver nesse abandono do país uma razão para empenhar mais esforços, junto com a comunidade internacional, para acelerar as ações de reconstrução do Haiti, que tem ficado aquém das expectativas de todos. Pelo suor e dedicação de todos os brasileiros que já arriscaram suas vidas no Haiti, o Brasil deveria estar comprometido em fazer cada vez mais pelos Haitianos e não menos, como parece ser o caso. Por favor, corrijam-me se eu estiver errado. Eu gostaria de estar errado.
sábado, 7 de janeiro de 2012
Teremos um padrão de vida europeu em 20 anos? Me engana que eu gosto!
Artigo Publicado na Folha de São Paulo em 07 Jan 2012
A imagem da sexta economia do mundo é uma ilusão. Somos ainda um país muito desigual, no qual milhões vivem ainda indignamente, nosso desenvolvimento humano tem andado a passos lentos e ao invés de encararmos os fatos de frente preferimos adotar uma atitude ‘me engana que eu gosto’, frente a algumas estatísticas que são feitas ‘para inglês ver’ e que tem pouca materialidade no dia-a-dia de milhões de brasileiros.
A sexta economia do mundo produziu em 2011 US$ 2,5 bilhões. No entanto, quando dividimos esse valor pela população, vemos que a renda per capita brasileira representa apenas a 77º posição no ranking mundial, sugerindo que o padrão de vida médio no país ainda é significativamente inferior ao padrão europeu. A situação piora quando comparamos com o ranking brasileiro no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), na qual o país cai para a posição de número 84º. Além disso, a velocidade de crescimento do IDH vem caindo desde o início da década passada até chegar ao atual 0.69% de crescimento ao ano. O Brasil vem acumulando uma dívida de saúde e educacional com sua população que impede avanços mais consistentes no padrão de vida da população.
Ao olhar para o passado, vemos que o Brasil de 2010 não pode ser comparado, por exemplo, a França, Holanda ou Inglaterra de vinte anos atrás. Esses países já tinham um nível de renda per capita 60-80% superior ao nível brasileiro atual, indicando que 20 anos pode não ser um prazo suficiente para convergência absoluta entre países. A atual diferença de uma renda per capita de menos de US$ 13mil por ano no Brasil, que contrasta com a renda de quase US$ 40mil da Inglaterra é apenas uma pequena parte dessa história. Dado o ainda alto nível de desigualdade da distribuição de renda no Brasil (com um índice de gini de 0.53), vemos que mesmo essa renda média pode significar pouco para a maioria da população. Os últimos dados do Censo nos mostram que os 10% mais ricos no Brasil tem 42.8% da renda e os 10% mais pobres apenas 1.3%.
Em 1990 França, Holanda e Inglaterra já possuíam um alto nível de escolaridade, medido por anos médios de estudo na faixa de 12, 11,1 e 11,7 anos, respectivamente, em contraste com os 7,2 anos atuais para o Brasil. Faltam anos de estudo ao brasileiro. Falta, ainda mais, qualidade nesses anos. De fato, a falta de progresso na agenda da qualidade da educação no Brasil é evidência de um futuro comprometido.
Apesar dos avanços sociais recentes, o Brasil ainda tem 14,6 milhões de analfabetos (9,6% da população em 2010 acima de 15 anos), 30% da sua população ainda sofre de algum tipo de insegurança alimentar e 8.5% sobrevive com menos de R$70 mensais. Ainda existem 17.1% dos brasileiros sem provisão regular de água e 32.9% sem saneamento.
É importante mencionar que a natureza do crescimento econômico brasileiro recente é baseada na produção de commodities, longe das matrizes produtivas do mundo desenvolvido que são intensivas em ciência&tecnologia e capital. Para chegar ao padrão europeu há que se tratar com mais seriedade a questão da ciência&tecnologia e educação de qualidade para um modelo produtivo mais includente.
Em resumo, o padrão de vida no Brasil ainda é muito mais baixo do que o europeu há 20 anos atrás, os avanços sociais são importantes mas ainda lentos e não investimos em educação de qualidade como outros países que se tornaram desenvolvidos fizeram. A idéia de ter um padrão europeu seduz, mas também pode nos afastar da verdade de onde estamos e de quem somos.
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