quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Como a recente queda da pobreza no mundo compara com o aumento dos bilionários?

O Banco Mundial recentemente divulgou os números da pobreza mundial medidos pela famosa linha de US$ 1 por dia (na verdade US$ 1.25). Em 2005, o mundo tinha 1,39 bilhão de pessoas vivendo abaixo dessa linha, que mede a pobreza extrema. Em 2008 (esse foi o dado divulgado pelo Banco Mundial) esse número baixou para 1,29 bilhão. Passamos de 25% de pobres extremos para 22%, o que foi qualificado pelo diretor de pesquisas do Banco Mundial, Martin Ravallion como "um avanço notável contra a pobreza extrema". Notável?

Os números não parecem tão bons quando medimos as pessoas que viviam entre US$ 1.25 e US$ 2 por dia entre 1981 e 2008. Nesse caso, o número de pobres passou de 648 milhões para 1,18 bilhão de pessoas, ou seja, praticamente dobrou. Mesmo assim, quando medimos o número de pessoas abaixo de US$ 2 encontramos progresso no período recente, passando de 2,59 bilhões de pessoas em 2005 para 2,47 bilhões em 2008, ou seja, passamos de 47% para 43% da população mundial.

As desigualdades na distribuição dessa média são as conhecidas. Pontos para a China e vergonha para a África Subsaariana que continua com 47,5% de sua população vivendo em pobreza extrema. A pobreza assim cai mais entre os mais pobres entre os pobres e de maneira desigual no mundo.

Mas e a riqueza? Interessante notar que segundo a lista de bilionários da Forbes entre 2010 e 2011 a China quase dobrou seu número de bilionários para 115, a Rússia cresceu em 75% para 101 e o Brasil, que também cresceu em 75%, passou para 30 o seu número de bilionários. De fato, os BRICs produziram mais da metade dos novos 214 bilionários do mundo, dobrando o número de bilionários em relação ao ano anterior. No balanço global o mundo nunca teve tantos bilionários (1.210) que juntos tem US$ 4,5 trilhões.

Sem dúvida é encorajador ver as estatísticas que indicam uma redução no número de pobres do mundo, pois a pobreza é uma violação da nossa própria condição de seres humanos que já deveria ter sido abolida há muito tempo. A pobreza é uma afronta a dignidade humana e qualquer progresso merece ser celebrado. Mas isso não deve diminuir o fato de que a riqueza anda na sua própria velocidade e que a distância entre os bilionários e os miseráveis no mundo está longe de diminuir. A verdade é que sabemos muito sobre os pobres e pouco sobre os ricos, por que será?

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Cooking the Books! lies and big lies in Argentina and in the UK

This week's edition of The Economist brings a strong attack to Argentina's government, responsible for publishing "inflation figures that almost nobody believes" and threatening economists who dare to disagree with the government. With the headlines "Don't lie to me, Argentina" and "The price of cooking the books", the magazine accuses the president, Cristina Fernandez Kirchner, of promoting expansionary policies and to deceive the public to conceal the rise. It argues that: "Since 2007, when Guillermo Moreno, the secretary of internal trade, was sent into the statistics institute, INDEC, to tell its staff that their figures had better not show inflation shooting up, prices and the official record have parted ways". Argentina has been criticised by the American Statistics Association for political persecution and by the IMF and the UN. But nothing seems to embarrass the Argentines.We are perhaps seeing the lowest side of weak democracies in Latin America that should not offer much reason for surprise. Good that respectable international magazines are here to let us know about these failed states, right?

Not really. The problem seems much bigger than The Economist suggested. For instance, today, Monday 27 February, The Times published a report telling how two Cabinet Ministers and one senior adviser of David Cameron drew up a plan to stop monitoring child poverty in the UK. Their fears is that Britain's official child poverty measure should produce a string of bad headlines for the Government in the following months. Oficially they argue that the measure that classifies children living in poverty as those living in households that are on 60% of Britain's median income is too crude and arbitrary. This measure suggests that further 100.000 children should be below the child poverty line in the near future. But, as The Times reports, "A compromise over child poverty has now been reached within the coalition. The income measure will be retained, but others will be added to created a more 'nuanced' picture of child poverty in Britain."

So, what are the main differences between Argentina and the UK? Well, indeed, the current situation in Argentina seems to be much worse because it involves threats, harassment and violation of basic human rights.That is very different from the situation in the UK. But both their attempts to 'cook the books', providing figures that will be used to hide negative aspects of their policies seem to share the same spirit.

Now, it would be terribly unfair to single out Argentina and the UK as if they were the only countries in the world trying to 'fiddle the figures'. This seems to be common practice among governments and it is only through strong civil societies that governments can be named and shamed for their attempts to hide the impact of their policies and public statistics. Can you think of any other countries in the world right now where governments are trying to cook the books?


domingo, 26 de fevereiro de 2012

Rio+20 ou -20? O futuro que queremos? Eu não, obrigado

Uma conhecida instituição francesa de caridade me pediu um parecer sobre o rascunho do documento sobre o Rio+20. A leitura do documento não foi uma experiência agradável. O documento começa com frases soltas, desarticuladas, desejos por um futuro 'seguro, próspero, justo, sem pobreza' ou que '20 anos após Rio experimentamos progressos e retrocessos na agenda 21'. Tudo bem, mas.....e daí? Por exemplo, o item 16 diz "Nós defendemos uma abordagem holística para o desenvolvimento sustentável que guiará a humanidade a viver em harmonia com a natureza". Holística? Em harmonia? Parece bom, mas de pouca materialidade.

No entanto, após quase 5 páginas de generalidades, o documento começa uma defesa consistente da 'Economia Verde' (Green Economy) seguida por declarações de apoio a políticas internas do Sistema ONU. O documento diz quase nada sobre o papel da sociedade civil e parece demandar muito de quem o apoia sem oferecer uma plataforma comum de engajamento social. Chama atenção como ele é omisso em valores humanos e ambientais mas específico em apoio à reestruturação de partes das Nações Unidas, um assunto complexo que deve ser de pouco ou nenhum interesse ao grande público. Não há muito no documento que inspire e que critique as desigualdades correntes que são subjacentes a padrões de consumo e produção insustentáveis.

 O apoio dado a Economia Verde parece quase irrestrito. O item 25 diz "Estamos convencidos que uma economia verde no contexto do desenvolvimento sustentável e erradicação da pobreza deve contribuir para a realização de diversos objetivos -em particular as prioridades da erradicação da pobreza, segurança alimentar, gerenciamento apropriado das águas, acesso universal a serviços modernos de energia, cidades sustentáveis, gerenciamento de oceanos e preparação e fortalecimento contra disastres, assim como para a saúde pública, desenvolvimento de recursos humanos e crescimento econômico sustentado, inclusivo e equitativo que gere emprego, inclusive para os jovens". Melhor dizer onde a Economia Verde não seria usada.

A idéia de que uma abordagem baseada na precificação de serviços de ecossistemas pode resolver essa gama complexa de problemas é intrigante. Não se deve negar o papel dos mercados na melhoria da eficiência alocativa, mas o que está em jogo nas discussões sobre sustentabilidade é muito mais do que isso. Discute-se critérios para justiça intra e inter-generacional. Discute-se o uso de uma variedade de abordagens necessárias para dar conta de um mundo diverso e que respeite culturas diferenciadas. Discute-se pedagogias para uma educação moral das pessoas pró-sustentabilidade.


O apoio à Economia Verde vai empobrecer o debate sobre sustentabilidade. Pode mesmo comprometer sua alma. Vai obscurecer questões sobre valores humanos, criar novas condicionalidades a países pobres, novas barreiras comerciais e restringir a diversidade de políticas públicas para a promoção da sustentabilidade. Defensores da cooperação Sul-Sul não encontrarão no documento nenhuma razão para celebrar. Há também uma certa condescendência e paternalismo em relação aos países em desenvolvimento.

Esse novo documento tem pouco do espírito dos documentos do Rio 1992. Parece que foi preparado para 1972, onde a ortodoxia econômica reinava absoluta. Nesse sentido o documento é um anacronismo e deveria ser chamado de 'Rio-20'. Mas ainda há esperança. O documento ainda é um rascunho. Sinceramente espero que a instituição francesa para qual dei o parecer assim como tantas outras brasileiras e de outros países, assim como seus cidadãos, possam engajar-se para a construção do 'futuro que queremos'. Espero que esse não seja um futuro onde saberemos os preços de tudo, mas o valor de quase nada.


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

O fim do Euro ?

A divisão na zona do euro chegou a um de seus capítulos mais dramáticos depois que o parlamento Grego votou no domingo dia 13 de fevereiro um dos mais duros pacotes de austeridade já vistos em tempos recentes. A obrigação de pagar 14.5 bilhões de euros em títulos gregos que estão vencendo dia 20 de março fez com que o programa de reestruturação da dívida grega (estimada no curto prazo em 130 bilhões de euros) fosse a única alternativa vista pela política grega. Leve-se em conta que enquanto o PIB da eurozona caiu 0.3% no último trimestre de 2011, o da Grécia caiu 7% (mais nem todos cairam, a Alemanha por exemplo cresceu 0.6% no mesmo período).

O problema fundamental é que a economia grega não oferece padrões mínimos de competitividade compatíveis com outros países da zona do euro, como a Alemanha, França ou Holanda. Como eles não podem desvalorizar sua moeda (estratégia normalmente adotado por países) o ajuste da ordem de 30% tem que ser feito internamente, impondo custos adicionais significativos à sociedade grega. O problema é que após as autoridades gregas terem votado no domingo esse pacote de austeridade, ontem e hoje elas ressurgiram perante a pressão da opinião pública dizendo que depois das eleições que eles terão em abril, eles já verão qual parte do pacote implementarão.

Essas declarações enfureceram ministros da economia da região, que começaram a questionar porque impostos dos seus cidadãos, que já vem reclamando há algum tempo os custos do bail-out, devem ser utilizados para financiar não empréstimos, mas simplesmente recursos que vão ser doações pró-estabilização em outros países. O enfraquecimento da coesão social dentro da zona do euro se refletiu em declarações feitas por altos funcionários da Comissão Européia de que 'a Grécia está próxima do calote' ou de que 'já estamos perdendo a paciência'.

Parece que tudo já está preparado dentro da zona do euro para a saída da Grécia. O fato de que a sua economia responde por menos de 3% de toda a economia do região pode facilitar sua saída. Por um lado, há uma mudança de sentimento contra a Grécia. Por outro, na Grécia há grande ressentimento contra a Alemanha e outros países da eurozona que parecem estar querendo puxar o país para fora do euro.

Nesse momento, o futuro do euro parece incerto, pode ser o começo do fim para alguns. Mas as evidências parecem sugerir justamente o contrário. A saída da Grécia não é o fim do euro, mas a única chance de sua continuidade. Para começar, as condições iniciais de união monetária (como controle do déficit público Grego) não foram preenchidas e aqui somente se pode culpar os Alemães e Franceses que foram mais motivados por razões políticas do que econômicas com a implantação do euro como consolidação da União Européia. Talvez seja melhor para o povo grego também. O euro sobreviverá, mas menor do que é hoje.


sábado, 11 de fevereiro de 2012

Brasil: potencia emergente com pés de barro? No El Pais

Pois foi assim que El Pais, um dos jornais mais importantes do mundo, se referiu ao Brasil, na sua edição on-line (http://internacional.elpais.com/internacional/2012/02/09/eldebate/1328812307_364926.html) que mobilizou um conjunto de especialistas para debater alguns problemas recentes brasileiros, como a questão da greve dos policiais na Bahia. Muito interessante observar a visão do Brasil vista de fora: um país que é importante em termos econômicos, mas que apesar de todo seu progresso recente continua sendo extremamente injusto.

Juan Arias comenta (deixo em espanhol) que "Los policías militares de Rio piden 3.500 reales de salario (unos 1.500 euros) que les parece imposible de conceder a las autoridades. En el Congreso se discute un piso salarial único nacional de 2.500 reales ( poco más de mil euros) y la misma Presidenta Dilma afirma que de ser aprobada muchos Estados acabarán arruinados. Ahora bien, los jueces llegan a ganar en Rio hasta 140.000 reales mensuales. La mayoría no menos de 50.000 reales. Son como mínimo 50 veces más que lo que gana hoy un policía militar. Sin hablar de los maestros cuyo sueldo máximo no llega a 800 euros." Esses são os números do Brasil vistos no exterior. Os números da desigualdade. Será que perdemos no Brasil a clareza da crítica vívida de quem nos olha lá de fora?

Enquanto não investirmos seriamente na educação brasileira será difícil discordar de que não temos os pés de barro.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

R$ 2.500 para o inacreditável 'auxílio-tablet' aos juízes de SP

Os juízes(as) são figuras fundamentais na vida de qualquer sociedade. As decisões que eles tomam cotidianamente mudam o destino de milhões de vidas e, mais importante, mantém todo o arcabouço de ordem de nossa sociedade. Eles são fundamentais também para que todos nós, seres mortais, sem poder de decisão ou intervenção na ordem da vida, acreditemos na justiça. Nosso 'senso de justiça' é fundamental para uma vida mais humana.

Manchetes como a de que o Tribunal de Justiça de São Paulo implementou um auxílio, renovável a cada três anos, para que os juízes(as) comprem 'tablets' (imaginando com isso que não gastarão seus recursos com computadores de mesa, pois já os tem) no valor de R$ 2.500 atingem o senso de justiça de qualquer cidadão com sentido comum. Primeiro, porque o 'auxílio' não é 'auxílio', mas corresponde ao valor integral de um tablet (bom, aí é claro, depende de onde se compre). Segundo, porque imagina-se que os juízes, já sendo uma das classes mais bem pagas do país poderiam talvez fazer o 'esforço' de comprar um tablet, se assim o desejassem. Terceiro, porque um tablet tem funções muito mais de lazer do que de trabalho, e isso não é um ponto trivial em toda essa história.

Mas talvez o mais inacreditável foi ver a resposta do presidente do TJ de SP (que não cabe citar o nome) às críticas, de que: "Na gestão passada foi concedido um crédito para aquisição desses dispositivos, pode ser tablet, pode ser computador. Isso é essencial ao trabalho dos juízes. Isso entendeu na época o presidente do tribunal. Já estava orçado, já estava ordenada a despesa e eu estou simplesmente cumprindo aquilo que foi decidido pelo presidente anterior". Ou seja, o mérito da questão parece não importar. O protocolo, o ritual, o processualismo é o argumento fundamental utilizado aqui em detrimento do mérito. Ora, isso deve preocupar muito, mas muito mesmo a todos nós. Quando o presidente do TJ (que deve ser uma pessoa de grande saber e isso não ponho em dúvida aqui) considera como mais importante um argumento protocolar do que o próprio mérito da questão, isso quer dizer que o próprio corpo de juízes deve pensar assim. Isso deve assustar a todos ao imaginar quantas outras decisões não são tomadas em bases similares.

Repito: os juízes são figuras fundamentais para qualquer sociedade que se pretenda civilizada. Fatos como esse podem abalar significativamente a confiança que a própria sociedade tem em suas funções, e mais trágico do que isso, na própria noção de justiça na sociedade.

E por falar em 'auxílios indispensáveis a boa função dos profissionais', acho que os trabalhadores deveriam começar a reinvidicar o 'auxílio comida', o 'auxílio contas', o 'auxílio moradia'.....