Vivemos dias em que falamos muito que "País rico é país sem miséria". Mas enquanto nos preocupamos com discussões sobre 'pobreza extrema', 'classe média', etc o número de milionários no país segue sem ser notado. O índice de Gini (medida tradicional de desigualdade de renda) parece já não captar os movimentos de renda dos milionários e bilionários do Brasil, razão pela qual, estatísticas como a divulgada recentemente pela Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) são muito valiosas para termos uma avaliação mais balanceada do que acontece no Brasil.
O Brasil tem hoje 50.602 milionários(as). Esse foi o número de pessoas atendidas por private banking durante o ano de 2011, segundo levantamento da Anbima que computou o número de pessoas com aplicações financeiras acima de R$ 1 milhão. Esse número é 5.7% maior do que o número de pessoas que possuíam aplicações em 2010. A renda total dos milionários(as) fechou 2011 com R$ 434,4 bilhões em investimentos.
O volume médio de recursos por cliente subiu de R$ 7,5 milhões para R$ 8,6 milhões, caracterizando um aumento na renda dos milionários de 21.6% em relação a 2010. Nada muito diferente do ano anterior, que subiu 22.9% em relação a 2009 (quando a Anbima começou a série). Chama atenção o fato que tanto o número de milionários como o aumento de sua riqueza serem muito superiores ao aumento do PIB brasileiro durante esses períodos. E, é claro, o private banking é apenas uma parte da riqueza dessas pessoas que deve estar distribuída em ativos imobiliários, carros de luxo, etc.
As estatísticas oficiais de desigualdade parecem não captar esse fenômeno. Durante 2011 o índice de Gini (que mede a desigualdade de renda em uma escala que vai de zero a um) caiu oficialmente 2.1% no Brasil. O crescimento da renda familiar per capita média foi de 2.7%. Números como esses habitam os noticiários todo o tempo criando um foco público na renda dos mais pobres. Enquanto isso, nas entrelinhas, a renda dos milionários sobe muito mais. Não se trata aqui de antagonizar a riqueza, esse não é o ponto. A questão principal é de como o 'zeitgeist institucional' nos leva a focar em um fenômeno e não em outro. Enquanto isso, o status quo se reproduz, levantando preocupações que as transformações sonhadas de diminuição das desigualdades no país possam ser apenas ilusórias.
A frase original de Benjamin Disraeli de que "existem 3 tipos de mentiras: mentiras, mentiras deslavadas e estatisticas" é um lembrete para a importância de olharmos com mais atenção para o que as estatísticas dizem e o que significam para nossas vidas. A isso se destina esse blog.
domingo, 25 de março de 2012
domingo, 18 de março de 2012
20% das mães não comem para que suas crianças comam
Poucas vezes vi um conjunto de estatísticas recentes que demonstrasse tão de perto o sofrimento humano que uma crise econômica pode impor. Na Inglaterra, o Netmums divulgou um estudo denominado 'Mums Missing Meals', um fenômeno que aponta que 20% das mães ficam regularmente sem comer para que as suas crianças comam. Esse não é um fenômeno novo. Isso acontece todos os dias em todas as partes do mundo, mostrando como as mulheres carregam em sí um espírito altruista que precisa ser melhor estudado e copiado pelos homens. Mas é novo em um país como a Inglaterra e mostra como mesmo sociedades bem estruturadas podem ficar a mercê das flutuações econômicas.O mais importante no entanto é como esse estudo ilustra o lado humano que perdemos atrás das 'estatísticas oficiais'.
A extensão da crise financeira possui uma face dramaticamente humana nessas estatísticas divulgadas pelo Netmums: 25% das famílias estão vivendo com cartões de crédito, 30% já tomou emprestado de amigos e famílias e 1% delas já estão nas mãos de agiotas. 70% das famílias estão no que consideram o limite da sobrevivência. Ainda pior é o impacto sobre a nutrição delas com 76% comendo 'mais barato', ou seja, comida de mais baixa qualidade (leia-se aqui não somente marcas mais baratas, mas mais gorduras e carboidratos e menos proteinas e micronutrientes, indispensáveis para uma boa saúde).
A crise financeira está mudando os hábitos de socialização das pessoas. Muitas famílias pararam de fazer festas de aniversário, 35% disseram que a relação com seu parceiro(a) piorou e 20% se isolaram de seus amigos. No limite, 16% dos pais estão sendo tratados por sofrerem de doenças relacionadas ao stress, 33% disseram ter pensado em suicídio ou simplesmente incapazes de lidar com suas vidas e 8% já estão tomando antidepressivos.
Enquanto os números das bolsas de valores e taxas de câmbio habitam nosso cotidiano quase sempre nos esquecemos da realidade vivida pelas pessoas e os dramas humanos que esses números escondem. O fenômeno das mães que não comem para dar aos seus filhos é um lembrete necessário sobre a importância de pensarmos sempre nos mais pobres quando olhamos as estatísticas oficiais.
A extensão da crise financeira possui uma face dramaticamente humana nessas estatísticas divulgadas pelo Netmums: 25% das famílias estão vivendo com cartões de crédito, 30% já tomou emprestado de amigos e famílias e 1% delas já estão nas mãos de agiotas. 70% das famílias estão no que consideram o limite da sobrevivência. Ainda pior é o impacto sobre a nutrição delas com 76% comendo 'mais barato', ou seja, comida de mais baixa qualidade (leia-se aqui não somente marcas mais baratas, mas mais gorduras e carboidratos e menos proteinas e micronutrientes, indispensáveis para uma boa saúde).
A crise financeira está mudando os hábitos de socialização das pessoas. Muitas famílias pararam de fazer festas de aniversário, 35% disseram que a relação com seu parceiro(a) piorou e 20% se isolaram de seus amigos. No limite, 16% dos pais estão sendo tratados por sofrerem de doenças relacionadas ao stress, 33% disseram ter pensado em suicídio ou simplesmente incapazes de lidar com suas vidas e 8% já estão tomando antidepressivos.
Enquanto os números das bolsas de valores e taxas de câmbio habitam nosso cotidiano quase sempre nos esquecemos da realidade vivida pelas pessoas e os dramas humanos que esses números escondem. O fenômeno das mães que não comem para dar aos seus filhos é um lembrete necessário sobre a importância de pensarmos sempre nos mais pobres quando olhamos as estatísticas oficiais.
sábado, 17 de março de 2012
Crise e o fim política do 'nhê-nhê-nhê' para os desenvolvidos
Foram gerados 150.600 vagas com carteira assinada em fevereiro de 2012 no Brasil, um número 56% mais baixo do que o número de vagas criadas em fevereiro de 2011, 347.070 empregos formais. A preocupação inicial é que essa queda significativa poderia ser um sinal de uma desaceleração da economia brasileira, perante flutuações decorrentes da crise financeira internacional que ainda castiga países da OCDE. Algumas pessoas poderiam criticar essa análise pois o mês de fevereiro do ano passado foi o que mais gerou empregos em 2011. Por outro lado, quando olhamos a série mensal de criação de empregos formais no país há uma clara desaceleração em relação a 2010, o que não é nenhuma surpresa.
O problema parece ser outro. Enquanto a crise faz com que países da OCDE se reestruturem produtivamente (vejam por exemplo o forte ajuste não apenas financeiro, mas real que a economia alemã já vem fazendo e os ajustes que as economias inglesas, espanhola, grega, entre outras estão fazendo), o Brasil parece complacente, com uma política de 'nhê-nhê-nhê' em relação aos países desenvolvidos, com um falso sentimento de superioridade.
Dados recentes do IBRE (FGV) mostram como o custo da mão de obra na industria brasileira aumentou 150% em relação ao dos parceiros comerciais do país entre 2003 e 2009, isso sim, um sinal de certa crise da indústria nacional devido a uma queda de produtividade de competitividade internacional. Está certo que os últimos dados são de 2009, mas sinalizam um encarecimento da mão-de-obra determinado pela falta de aumento de produtividade pois não foram aumentos salariais os responsáveis por esse encarecimento. Em termos absolutos a produtividade média cresceu apenas 0.6% durante esse período, sendo que para a indústria a produtividade caiu 0.8% durante 2000 a 2009.
A 'marolinha' foi facilmente contornada por uma política fiscal e tributária contra-cíclica pois o Brasil não participou do ciclo expansivo e da associada sobrevalorização de ativos que caracterizou a crise financeira internacional. Temos alguns anos positivos para celebrar, menos pela nossa competência, mais por não ter participado do ciclo anterior. E agora, estamos perdendo a corrida para reestruturarmos produtivamente a economia brasileira para podemos competir com o resto dos países desenvolvidos quando o estágio de letargia econômica internacional terminar. Os números conjunturais de emprego são apenas parte desse problema. O pior pode estar por vir alguns anos pela frente.
O problema parece ser outro. Enquanto a crise faz com que países da OCDE se reestruturem produtivamente (vejam por exemplo o forte ajuste não apenas financeiro, mas real que a economia alemã já vem fazendo e os ajustes que as economias inglesas, espanhola, grega, entre outras estão fazendo), o Brasil parece complacente, com uma política de 'nhê-nhê-nhê' em relação aos países desenvolvidos, com um falso sentimento de superioridade.
Dados recentes do IBRE (FGV) mostram como o custo da mão de obra na industria brasileira aumentou 150% em relação ao dos parceiros comerciais do país entre 2003 e 2009, isso sim, um sinal de certa crise da indústria nacional devido a uma queda de produtividade de competitividade internacional. Está certo que os últimos dados são de 2009, mas sinalizam um encarecimento da mão-de-obra determinado pela falta de aumento de produtividade pois não foram aumentos salariais os responsáveis por esse encarecimento. Em termos absolutos a produtividade média cresceu apenas 0.6% durante esse período, sendo que para a indústria a produtividade caiu 0.8% durante 2000 a 2009.
A 'marolinha' foi facilmente contornada por uma política fiscal e tributária contra-cíclica pois o Brasil não participou do ciclo expansivo e da associada sobrevalorização de ativos que caracterizou a crise financeira internacional. Temos alguns anos positivos para celebrar, menos pela nossa competência, mais por não ter participado do ciclo anterior. E agora, estamos perdendo a corrida para reestruturarmos produtivamente a economia brasileira para podemos competir com o resto dos países desenvolvidos quando o estágio de letargia econômica internacional terminar. Os números conjunturais de emprego são apenas parte desse problema. O pior pode estar por vir alguns anos pela frente.
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